A coifa dos rotadores é o conjunto de quatro músculos e respetivos tendões que envolvem a articulação do ombro. É uma estrutura fundamental para elevar e rodar o braço e para manter a cabeça do úmero centrada na articulação. As lesões da coifa são uma causa frequente de dor no ombro, mas nem todas têm o mesmo significado nem exigem cirurgia. Este artigo explica, de forma geral, o que é a coifa dos rotadores, que sintomas pode causar, como se faz o diagnóstico e em que situações a cirurgia é ponderada.
A coifa dos rotadores é formada por quatro músculos que nascem na omoplata e cujos tendões se fixam na extremidade superior do úmero, o osso do braço. Os tendões, ao fundirem-se, formam uma espécie de “manga” em torno da cabeça do úmero. Daí o nome de “manguito rotador”, também usado em português.
| Músculo | Onde se fixa no úmero | Função principal |
|---|---|---|
| Supraespinhoso | Grande tuberosidade (parte superior) | Participa na elevação do braço e ajuda a estabilizar a cabeça do úmero |
| Infraespinhoso | Grande tuberosidade (parte posterior) | Rotação externa do braço |
| Pequeno redondo | Grande tuberosidade (parte posterior) | Rotação externa do braço |
| Subescapular | Pequena tuberosidade (parte anterior) | Rotação interna do braço |
Em conjunto, estes músculos funcionam como estabilizadores dinâmicos: mantêm a cabeça do úmero centrada na cavidade da omoplata enquanto os músculos maiores, como o deltoide, movem o braço. Sobre uma lesão específica de um destes tendões, pode ler o artigo sobre a rotura do subescapular.
Segundo o PubMed, numa revisão publicada em 2024 na Nature Reviews Disease Primers, algumas roturas são traumáticas, mas a maioria dos problemas da coifa é degenerativa: começam como alterações no próprio tendão, com desorganização da matriz e alterações inflamatórias, e podem evoluir de lesões parciais para roturas completas. Os autores salientam ainda que nem todas as roturas causam sintomas e nem todas progridem, e que a qualidade do músculo (o seu volume e a infiltração gorda) influencia os sintomas, a progressão e os resultados da cirurgia.1 De acordo com a revisão de Dickinson e Kuhn (2023), a prevalência das roturas da coifa aumenta com a idade.2
Na prática, as causas podem dividir-se em dois grupos:
É também importante lembrar que nem toda a dor no ombro vem da coifa. Outras causas incluem a tendinite calcificante, a rigidez do ombro e a luxação acromioclavicular, entre outras. Pode ver uma visão geral na página de patologias.
Os sintomas variam com o tipo e a extensão da lesão. Entre os mais habituais encontram-se:
Nenhum destes sintomas permite, por si só, confirmar uma rotura. Algumas pessoas têm roturas da coifa sem dor, e outras têm dor sem rotura. Por isso, a avaliação clínica é essencial. Para mais informação sobre as roturas, consulte a página sobre rotura da coifa dos rotadores.
O diagnóstico começa na consulta, com a história clínica e o exame físico do ombro. Uma revisão sistemática de guias de orientação clínica sobre doenças do ombro (26 guias analisados) refere que a avaliação inicial da dor no ombro deve incluir a história do doente, uma avaliação centrada nos sinais de alarme e o exame clínico.3 Segundo a revisão de Dickinson e Kuhn (2023), o diagnóstico pelo exame físico pode exigir um conjunto de testes, e não apenas um teste isolado.2
A escolha do exame depende da suspeita clínica e das decisões que o resultado poderá influenciar. Um exame de imagem deve sempre ser interpretado em conjunto com os sintomas e o exame físico.
Não. Segundo a revisão publicada na Nature Reviews Disease Primers, o tratamento depende sobretudo dos sintomas, e o tratamento não cirúrgico é suficiente para a maioria dos doentes com problemas da coifa.1 Esta orientação mantém-se nas lesões parciais: uma revisão de 2024 sobre roturas parciais indica que quase todas devem ser tratadas inicialmente de forma conservadora.7
De acordo com a revisão de Dickinson e Kuhn (2023), uma parte importante dos doentes pode responder ao tratamento conservador, que inclui fisioterapia e infiltrações. A fisioterapia deve procurar recuperar a amplitude de movimento, tratar rigidez de estruturas vizinhas e recuperar o controlo motor e a força da omoplata e da coifa. Podem ainda ser usados anti-inflamatórios não esteroides e infiltrações de corticoide ou de plasma rico em plaquetas.2 A revisão sistemática de guias clínicos refere que o paracetamol, os anti-inflamatórios orais e a reabilitação com exercício são recomendados, ou podem ser recomendados, para as dores do ombro em geral.3 Saiba mais sobre a infiltração do ombro.
A decisão é individual. Segundo uma revisão sobre roturas parciais, a decisão cirúrgica depende de fatores como a idade, o braço dominante, a causa da lesão, o nível de atividade, a espessura e a localização da rotura.8 Em termos gerais, a cirurgia pode ser ponderada em situações como:
Uma meta-análise de ensaios clínicos aleatorizados (2021), que comparou o tratamento conservador com o cirúrgico em roturas completas (6 estudos), não encontrou diferença estatisticamente significativa na função do ombro, medida pelo Constant-Murley score, aos 12 e aos 24 meses. Em relação à dor, houve uma diferença a favor do grupo cirúrgico ao fim de um ano. Os autores sublinham que são necessários estudos de maior qualidade e com seguimento mais longo.9 Ou seja, a evidência não aponta para uma resposta igual para todos os doentes, o que reforça a importância de uma avaliação individual.
Quando há indicação para reparar a coifa, a cirurgia é frequentemente realizada por artroscopia e tem como objetivo voltar a fixar o tendão ao osso. Segundo a revisão da Nature Reviews Disease Primers, as técnicas artroscópicas atuais melhoraram a recuperação, mas os resultados continuam limitados pela dificuldade em melhorar a cicatrização do tendão ao osso em muitos doentes.1 Para conhecer o procedimento, consulte a página sobre a sutura artroscópica da coifa dos rotadores.
Após a reparação, a reabilitação é progressiva e respeita o tempo de cicatrização do tendão. Habitualmente existe um período inicial de proteção do ombro, seguido de exercícios graduais para recuperar a mobilidade e, mais tarde, a força. Uma interpretação publicada em 2026 da diretriz da AAOS refere o potencial benefício da mobilização precoce em doentes com roturas pequenas a médias.6 Ainda assim, o calendário depende do tamanho da rotura, da qualidade do tecido, da técnica utilizada e da evolução de cada doente, e é definido pelo cirurgião e pela equipa de reabilitação.
É o conjunto de quatro músculos e tendões (supraespinhoso, infraespinhoso, pequeno redondo e subescapular) que rodeiam a cabeça do úmero, ajudam a mover o braço e mantêm o ombro estável.
Não. Segundo a revisão da Nature Reviews Disease Primers, as lesões da coifa abrangem um espetro que vai da tendinopatia às roturas completas.1 A diferenciação faz-se com a avaliação clínica e, quando indicado, com exames de imagem.
Os sintomas podem melhorar com tratamento não cirúrgico, mas isso não significa necessariamente que o tendão volte a unir-se. Alguns doentes mantêm uma boa função mesmo com a rotura. A evolução varia de pessoa para pessoa e deve ser acompanhada por um médico.
Não necessariamente. A indicação depende da história clínica, do exame físico e das decisões terapêuticas em consideração. Em alguns casos, a ecografia ou a radiografia podem ser suficientes numa primeira fase.
Quando a dor no ombro persiste, quando há perda de força ou dificuldade em tarefas do dia a dia, ou após uma queda ou um traumatismo com dor intensa ou incapacidade súbita de mexer o braço. Perante deformidade evidente ou dor muito intensa depois de uma queda, procure avaliação médica sem demora.
Se tem dor no ombro ou suspeita de uma lesão da coifa dos rotadores, pode conhecer o Dr. Luís Henrique Barros ou consultar os contactos para marcar consulta.
Referências identificadas através do PubMed.
Este artigo tem carácter informativo e não substitui a consulta nem a avaliação médica individual.