A luxação esternoclavicular é uma lesão rara, em que a extremidade interna da clavícula perde o contacto normal com o osso esterno, no centro do peito. Pode ser pouco evidente ou, em alguns casos, associar-se a complicações que exigem atuação urgente. Este artigo explica, de forma geral, o que é, como se reconhece, como se diagnostica e que opções de tratamento existem. Faz parte da nossa informação sobre patologias do ombro e do cotovelo.
A articulação esternoclavicular liga a extremidade interna da clavícula ao esterno e é o único ponto de ligação do membro superior ao esqueleto do tronco. Segundo a revisão de Morell e Thyagarajan (2016), esta articulação tem pouca congruência entre as superfícies ósseas e depende, por isso, dos ligamentos que a rodeiam (costoclavicular, interclavicular e cápsula articular) para a sua estabilidade. Os mesmos autores referem que a cápsula posterior é a estrutura mais importante para essa estabilidade, qualquer que seja a direção da lesão.1
Não deve ser confundida com a luxação acromioclavicular, que afeta a extremidade externa da clavícula, junto ao ombro.
Esta lesão resulta, em regra, de um traumatismo significativo, como um acidente de viação, uma queda ou um impacto durante a prática desportiva. Numa série de casos de 125 doentes com luxação esternoclavicular aguda, tratados em 12 centros de trauma, a maioria tinha entre 18 e 29 anos e o mecanismo mais frequente foi a colisão com veículo motorizado.2
A clavícula pode deslocar-se em duas direções principais:
Em doentes jovens, a lesão pode corresponder a uma fratura da zona de crescimento da extremidade interna da clavícula e não a uma luxação propriamente dita. Para outras lesões da clavícula, consulte a página sobre fratura da clavícula; para perceber quando uma fratura da clavícula é operada ou tratada sem cirurgia, leia o artigo dedicado ao tema.
Após o traumatismo, podem surgir:
Estes sinais não permitem, por si só, distinguir uma luxação de outras lesões do tórax ou da clavícula. É necessária avaliação médica e, em regra, exames de imagem.
Segundo a revisão de Morell e Thyagarajan (2016), a luxação posterior pode associar-se a complicações potencialmente fatais, como lesões neurovasculares, da traqueia e do esófago, pelo que estas lesões devem ser reconhecidas e tratadas sem demora.1 Uma série de casos publicada em 2023 descreve também a luxação posterior como uma lesão rara e potencialmente fatal, por poder ocorrer hemorragia grave no momento do traumatismo e durante as manobras de redução.3
Por isso, após um traumatismo violento do peito ou do ombro, dirija-se de imediato ao serviço de urgência (ou ligue 112) se tiver:
O diagnóstico começa pela história do traumatismo e pelo exame físico, que avalia a dor, o relevo da articulação, a mobilidade do ombro e o estado neurológico e circulatório do membro. Em contexto de trauma, é também avaliada a possibilidade de lesões associadas.
A radiografia é habitualmente o primeiro exame nas lesões da cintura escapular.4 No entanto, segundo Morell e Thyagarajan (2016), a radiografia define mal a anatomia ao nível do mediastino, razão pela qual a tomografia computorizada (TC) passou a ser o exame utilizado para esclarecer estas lesões.1 Na luxação posterior, a equipa de Ingoe (2023) recomenda a angio-TC, para avaliar a proximidade da articulação aos vasos situados atrás dela e identificar eventual hemorragia.3
Não existe um protocolo de tratamento uniformizado: devido à raridade da lesão, a evidência disponível baseia-se sobretudo em séries de casos e revisões, e as revisões publicadas sublinham a necessidade de individualizar a decisão.56
De acordo com a revisão de El Zouhbi e colaboradores (2025), a redução fechada (reposição da clavícula sem cirurgia) seguida de fisioterapia é a abordagem inicial na maioria das luxações anteriores agudas, com resultados aceitáveis em doentes com menores exigências funcionais. Estes tratamentos têm, contudo, uma taxa elevada de instabilidade recorrente, com impacto funcional reduzido. Nos casos de instabilidade recorrente que continuam a ter sintomas, a cirurgia é habitualmente ponderada.5 Segundo a revisão de Gleich e colaboradores (2024), nas luxações anteriores não existe a mesma urgência temporal que nas posteriores.6
Na luxação posterior, a meta-análise de Sernandez e Riehl (2019) concluiu que, em contexto agudo, deve ser tentada a redução fechada, reservando-se o tratamento aberto (cirúrgico) para os casos em que esta não resulta.7 Gleich e colaboradores (2024) descrevem que a redução fechada deve ser tentada de imediato, sob analgesia e sedação e com meios de emergência disponíveis.6 Dado o risco de hemorragia, a série de Ingoe e colaboradores (2023) recomenda que as reduções sejam realizadas com um cirurgião cardiotorácico presente, capaz de obter controlo vascular, e que a equipa se prepare previamente para essa eventualidade.3 Por este motivo, estas lesões são tratadas em meio hospitalar, com equipas multidisciplinares.
A cirurgia pode ser considerada quando a redução fechada não é bem-sucedida, quando persiste instabilidade com sintomas ou quando existe lesão de estruturas neurovasculares.6 Existem várias técnicas, incluindo suturas, enxertos de tendão e placas, escolhidas de acordo com a idade, a atividade, a qualidade do osso e as características da lesão.5
Uma revisão sistemática de 2024 (16 estudos, 245 doentes) concluiu que o tratamento cirúrgico das luxações agudas, anteriores e posteriores, se associou a melhoria funcional e da satisfação dos doentes, com poucas complicações e baixa taxa de revisão, mas os autores sublinham a necessidade de estudos comparativos.8 Em contrapartida, numa série de 125 doentes com luxação aguda, a taxa de complicações foi semelhante nos doentes operados e não operados (cerca de 4 em cada 10 doentes em ambos os grupos), sendo a dor, a limitação do movimento e a instabilidade as mais frequentes; os autores concluem que cada doente deve ser avaliado individualmente para decidir se a cirurgia é necessária.2
Nos casos de instabilidade crónica que persiste apesar de tratamento não cirúrgico adequado, uma revisão sistemática de 2026 (12 estudos, 164 doentes) encontrou melhoria dos resultados reportados pelos doentes após reconstrução, independentemente da técnica, mas assinala que a evidência provém de pequenas séries de casos.9
O prognóstico depende do tipo de luxação, das lesões associadas, do tempo até ao tratamento e das características de cada doente. A revisão de Gleich e colaboradores (2024) refere que, apesar da variedade de estratégias de tratamento, o resultado a longo prazo tem sido descrito de forma consistentemente favorável.6 Ainda assim, na série multicêntrica de 2025, cerca de 4 em cada 10 doentes tiveram complicações após o tratamento inicial, como dor persistente, limitação do movimento ou instabilidade.2 Após reconstrução por instabilidade crónica, a revisão de 2026 refere uma taxa elevada de regresso ao desporto ou ao trabalho, embora com limitações em alguns casos.9 O regresso às atividades é decidido de forma individual, após a avaliação do médico assistente.
Após um traumatismo, qualquer suspeita deve ser avaliada por um médico. Os sinais de alarme descritos acima, em particular as dificuldades respiratórias ou de deglutição, exigem observação urgente, porque a luxação posterior pode envolver estruturas do mediastino.
A radiografia simples tem limitações nesta região, e a TC é o exame utilizado para esclarecer a direção do deslocamento e a relação com as estruturas vizinhas. A indicação de cada exame é feita pelo médico, de acordo com o quadro clínico.
Não necessariamente. Em muitas luxações anteriores agudas é utilizada a redução fechada e a fisioterapia. A cirurgia é ponderada quando a redução não é bem-sucedida, quando há instabilidade sintomática persistente ou lesão de estruturas vizinhas. A decisão é individual.
A deformidade estética e a instabilidade podem persistir após o tratamento, sobretudo na luxação anterior, com impacto funcional que, segundo a revisão de 2025, é reduzido.5 Se a saliência causar dor ou limitação, justifica-se nova avaliação.
Se teve um traumatismo na região do ombro ou do peito, ou tem dúvidas sobre uma lesão da clavícula, pode conhecer o Dr. Luís Henrique Barros ou consultar os contactos para marcar consulta.
Referências identificadas através do PubMed.
Este artigo tem carácter informativo e não substitui a avaliação médica individual nem as instruções do seu médico.